terça-feira, 20 de maio de 2014

Títulos, pressão e até pedido para não jogar: Cadu esmiúça história no Fla

Após 17 meses de cobranças, meia admite que se sentia mais à vontade em jogos fora, revela ter cogitado sair em 2013, mas ressalta Copa do Brasil: “Valeu a pena”

Por Rio de Janeiro
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Quarenta e nove jogos, um gol, muita turbulência e uma certeza: o fim da relação foi o melhor que poderia acontecer tanto para o Flamengo quanto para Carlos Eduardo. Reforço mais badalado de gestão Eduardo Bandeira de Mello, o meia assinou na última semana um termo que o libera dos treinamentos enquanto define forma de pagamento dos últimos meses de salário com o clube. Foi o ato derradeiro de uma história que o próprio jogador admite poder ter sido escrita de outra forma, mas que nem por isso deixou de ser vitoriosa.   
- Claro que poderia ter rendido mais. Sei do meu potencial, todo mundo sabia, e a cobrança era grande. Posso falar que saio feliz, com mais dois títulos na minha estante.
Carlos Eduardo Despedida Flamengo (Foto: Carlos Mota)Carlos Eduardo segue sua trajetória sem o Flamengo após passagem complicada pelo clube (Foto: Carlos Mota)

Já de volta ao Rio Grande do Sul, sua terra natal, Cadu recebeu a reportagem do GloboEsporte.com em sua casa no último dia no Rio de Janeiro. Com o retorno para o Rubin Kazan, da Rússia, clube com o qual tem contrato até 2018, como destino mais provável, passou a limpo os 17 meses de Flamengo. No longo bate-papo, admitiu que chegou a pedir para não jogar em uma partida contra o Goiás pelo Brasileirão, disse que o rendimento abaixo do esperado está diretamente relacionado à falta de confiança, agradeceu a Jayme de Almeida pelos raros momentos de trégua com o torcedor e garantiu:   
- Valeu a pena.   
Confira abaixo toda entrevista: 
Carlos Eduardo, Bolivar x Flamengo (Foto: Alexandre Vidal/Fla Imagem)O meia avaliou como positiva sua curta história pelo Rubro-Negro (Foto: Alexandre Vidal/Fla Imagem)
Para começar, queria que você fizesse uma autoanálise da passagem pelo Flamengo?
Foram momentos bons, momentos ruins, mas saio feliz pelos dois títulos. Na Copa do Brasil, eu joguei praticamente todos os jogos e fiz um gol importante. Claro que poderia ter rendido mais. Sei do meu potencial, todo mundo sabia, e a cobrança era grande. Posso falar que saio feliz, com mais dois títulos na minha estante. Então, o balanço é legal.
Quando que você sentiu que as coisas não estavam saindo como você esperava? Teve aquele começo, com a questão da adaptação e tal, mas chegou uma hora que você já estava bem fisicamente e as coisas não aconteciam.
Senti muito ali perto do jogo com o Atlético-PR (quando Mano deixou o clube). Naquela época a pressão estava muito grande, mas é o que eu sempre falo: é difícil em qualquer lugar do mundo o jogador ir para o campo e saber que se acertar dez e errar uma vão pegar no pé. Minha confiança foi lá embaixo, isso é natural. Esse foi um dos momentos mais difíceis.
Você chegou a pensar em ir embora antes?
Falei com meu empresário uma vez que se tivesse alguma coisa era melhor sair. A pressão era muito grande e eu precisava de confiança. Não tinha isso, pegava a bola e tocava. Minha característica é completamente diferente, tanto pela pressão quanto por saber que eu não estava rendendo.
Pela forma que chegou, como principal reforço, com muita gente sabendo seu salário, etc, você acha que a pressão acabou sendo maior e a paciência menor?
Ajudou. Com salário alto, em qualquer lugar do mundo a cobrança é maior. Não se pode vazar isso de dentro. Se perguntar a qualquer pessoa, ninguém gosta de falar o salário. É uma coisa pessoal e envolve a segurança da minha família. Se isso vaza, eu não me preocupo, mas me preocupo com minha família. Sabemos como é no Brasil.
É difícil em qualquer lugar do mundo o jogador ir para o campo e saber que se acertar dez e errar uma vão pegar no pé". 
Carlos Eduardo
Você acha que a impaciência com você foi acima do normal ou natural pelo seu rendimento?
Em muitos momentos, foi acima do normal. Jogar no Flamengo é sempre pressão em cima de todo mundo. Quem vier com o salário bom, a expectativa é muito grande. Todos os jogadores têm momentos bons e ruins, é preciso ter isso na cabeça. É do futebol, mas eu nunca tinha passado por isso. Foi ruim, mas também foi legal. Cresci muito. A pressão vai existir em qualquer clube do Brasil e do mundo, até porque os salários são muito altos. Ainda mais no Flamengo, que tem a maior torcida do Brasil e gosta de ver jogadas legais. E eu não conseguia mostrar isso, até por falta de confiança.
Qual foi seu melhor momento em campo, o que você acha que mais se aproximou do Carlos Eduardo que você conhece tecnicamente?
Fiz jogos bons. O clássico com o Vasco em Brasília, acho que fui bem em um Fla-Flu no Brasileiro. Fiz boas partidas. Mas o melhor foi mesmo com o Jayme. Ele me ajudou muito desde o jogo de Criciúma (quando o treinador foi interino no lugar de Jorginho). Ali, ele me chamou, falou que precisava de um cara que segura a bola e eu era esse jogador. Ganhamos o jogo e joguei bem. A partir dali, ganhei um pouco de confiança. O Jayme me deu respaldo e carinho, me ajudou, deu confiança e me manteve no time. Com o Jayme, joguei quase todas e creio que ajudei.
Carlos Eduardo Despedida Flamengo (Foto: Carlos Mota)Apesar das vaias, Cadu tira como positivo o tempo em que jogou bola com a camisa rubro-negra (Foto: Cahê Mota)

Você se sentia mais à vontade para jogar fora do Rio?
Com certeza. Jogar fora era bem melhor. Torcedor do Flamengo tem em qualquer lugar do Brasil, mas me sentia mais à vontade. No Rio, eu já ia tenso no ônibus. Graças a Deus, eu tenho uma cabeça tranquila, fico na minha. É claro que ninguém gosta de passar por isso, mas foi um aprendizado. Agora, estou preparado para o que vier.
A cobrança que você tinha no estádio chegou às ruas?
Engraçado que nunca. As pessoas que me encontravam, sei lá, tinham medo de falar ou alguma coisa. Falavam: "Confiamos em você". Essa semana, fui jogar futevolêi e disseram: "Gostava da sua canhotinha ali, você segura, trabalha". Me davam apoio, desejavam sorte no futuro. Nunca teve nada de ameaça. Nunca. Sempre me deram incentivo.
Se perguntar a qualquer pessoa, ninguém gosta de falar o salário. É uma coisa pessoal e envolve a segurança da minha família 
Cadu
 E qual foi o momento mais complicado?
Acho que naquela semana do Atlético-PR (da saída de Mano Menezes). Ali foi pesado. Acho que foi o jogo em que saí mais vaiado, muito. Foi um jogo duro, uma semana dura. Até comentei com o (Jorge) Machado (empresário): "Estou triste, não quero mais ficar aqui". Ele, que é muito inteligente, disse para ter calma, conversar com o Pelaipe, que foi outro que sempre me ajudou muito. Fiquei muito triste, muitas vezes sozinho, mas me deram tranquilidade para trabalhar e com o Jayme comecei a crescer.
Você fala muito do Jayme, mas todo mundo esperava que você fosse explodir com o Mano. Faltou algum tipo de acolhimento da parte dele?
É um cara que me conheceu no Grêmio, me ajudou muito, mas aqui foi muito rápido. Tinha muito potencial para arrumar o time, mas futebol é aquilo, muda toda hora. Acho que fiz alguns bons jogos com ele, não muitos. Na época, não sentia muita confiança. A cobrança era muito grande. O Mano me ajudou muito na carreira, todo mundo achava que eu ia deslanchar, mas, infelizmente, não foi.
Em algum momento você chegou a pedir ao Pelaipe ou ao Jayme para não jogar?   
Sim, pedi para não jogar em um momento, um jogo. Foi contra o Goiás, no jogo do Brasileiro, depois da semifinal da Copa do Brasil. Cheguei e falei: "Jayme, esse jogo vai ser uma cobrança muito grande para cima de mim, me deixa fora, quero organizar um pouco a minha cabeça". Ele falou: "Nós confiamos em você, precisamos de você, mas se é o que você quer, vou te deixar fora".
Cadu se despede dos companheiros no Flamengo (Foto: Carlos Mota )Cadu fez seu último trabalho no Ninho na quinta-feira passada (Foto: Cahê Mota)

 
Fala-se muito que em campo não dá para ouvir muita coisa, mas você conseguia ouvir as vaias quando colocavam seu nome no telão, sentia a pressão?   
Não. No vestiário, a gente coloca música e tal, mas eu já entrava uma pouquinho tenso, preocupado, mas torcedor é assim. Se fizer um gol, uma boa jogada, tu é o melhor. Mas futebol é assim, podemos jogar um, dois jogos bem e depois ir mal. Todo jogador de futebol tem que ter a cabeça muito forte para passar por dificuldades. Somos humilhados por muitos e temos que ter a cabeça muito boa.
Acho exagero, saio com dois títulos. Podem falar o que quiser, eu vou respeitar. Sempre que pegarem a foto do título da Copa do Brasil, estou lá. E fiz um dos gols mais importantes". 
Cadu, negando que seja um dos reforços mais decepcionantes da história do Flamengo
Na reta final de 2013, a torcida resolveu dar uma trégua, fez campanha para final da Copa do Brasil, começou o ano gritando seu nome, mas as coisas não aconteceram. O que o faltou para 2014 não ser o ano da volta por cima?
Tive momentos legais aqui. A torcida toda gritando meu nome na final da Copa do Brasil foi uma emoção muito grande. Talvez agora, no últimos meses... Teve aquele lance lá contra o Macaé, depois dali... Para as pessoas que entendem de futebol, foi um lance em que o goleiro estava inteiro na bola e eu já voltei para fazer a marcação. A bola bateu, voltou e o Hernane fez o gol. Falaram muita bobagem, e o Jayme me disse que achava que era o momento de ficar um pouco fora, ser preservado. Foi legal da parte dele. Dali para frente, o Flamengo começou a jogar bem, chegou o Elano, outros de qualidade, e fiquei fora. Meu contrato vence agora em junho e acharam melhor não forçar uma situação se ali na frente eu ia embora.
Aí, veio o jogo com o Bolívar, na altitude, você foi titular, saiu e nunca mais. Para quem viu de fora, ficou estranho...
Mas em muitos jogos foi assim comigo aqui. Em muitos jogos, o time estava perdendo, eu no banco e entrava no segundo tempo. E no meu ponto de vista, não fui tão mal naquele jogo lá na Bolívia. No segundo tempo, estava mais solto. Aqui, muitas vezes, aconteceu isso. A primeira opção para tirar era o Carlos. Dá para contar nos dedos as vezes em que entrei no jogo com o time ganhando.
Depois dali, você nunca mais jogou. Foi algo conversado ou que você percebeu com o tempo?
Eu continuei normal treinando, mas com o tempo eu vi. Não fui mais para os jogos, em muitas vezes fui cortado no vestiário. Depois, ligaram para o meu empresário, passaram a situação, e eu concordei também. Ficar aqui treinando atrás do gol é ruim. Fazemos alguma coisa, sigo minha vida e fica bom para todo mundo.
 
Em algum momento você pensou em ficar, pensar em ficar para mudar tudo isso que aconteceu neste ano?
Não. Acabou. Deu. 
Carlos Eduardo substituído jogo Flamengo e Atlético-PR final Copa do Brasil (Foto: André Durão / Globoesporte.com)Carlos Eduardo está na relação dos nomes de peso que não emplacaram no Fla (Foto: André Durão / Globoesporte.com)

Há uma lista grande dos chamados reforços mais decepcionantes da história do clube, com Alex, Edmundo, Denílson e outros. Você acha que se encaixa nisso ou é o exagero?
Acho exagero, saio com dois títulos. Podem falar o que quiser, eu vou respeitar. Sempre que pegarem a foto do título da Copa do Brasil, estou lá. E fiz um dos gols mais importantes (contra o Cruzeiro, pelas oitavas de final).
E o futuro? Vai para Rússia mesmo?
O Machado está chegando da Rússia, vai me passar algumas coisas e vamos conversar. O treinador do Rubin Kazan já deu entrevistas dizendo que conta comigo, que eu sou importante para o grupo e que vai me ajudar muito lá. Por enquanto, é isso, mas algumas coisas podem acontecer.
Se você pudesse escolher, voltaria ou fica no Brasil?
Eu quero ir para fora. A tranquilidade é maior, as pessoas te respeitam mais. Claro que ficar perto da família é bom, saí muito cedo de casa e agora tive a oportunidade de viver mais próximo deles, mas nossa vida é assim e vou optar pelo melhor.   
É um clube que aprendi a gostar, me tornei um torcedor flamenguista, posso dizer isso. Foi uma torcida que sempre ajudou o time, principalmente na Copa do Brasil. Valeu a pena
Cadu
O último ciclo de Copa mostrou muito dos altos e baixos da carreira de um jogador. Com o Dunga, você ficou entre os 30, na lista de espera. Agora, você vive o momento mais difícil. A próxima Copa é na Rússia, onde você deve voltar a viver. É uma meta? Um desafio depois de tudo que aconteceu?
Todo jogador sonha com isso. Eu quase bati lá em 2010, foi legal. As lembranças são ótimas, mas as coisas têm que ser com calma. Tem muitos jogadores no Brasil, estão vindo cada vez mais, e acho que já vai estar tarde para mim. Estou sendo realista. Mas futebol gira, gira. Um dia você está bem, outro mal, vai saber? Quem sabe não faço uma temporada boa na Rússia e parto para outro clube, fico bem. No futebol, temos que estar espertos a todo momento. 
Carlos Eduardo Despedida Flamengo (Foto: Carlos Mota)O jogador gaúcho dará sequência à sua carreira em outros ares Flamengo (Foto: Carlos Mota)

Ainda comparam muito o Cadu com o Cadu de 2007, no Grêmio. Até onde o Carlos Eduardo ainda pode voltar? Ou hoje em dia você é outro jogador?
Nós mudamos muito. Para chegar ao Cadu de antes, é muito difícil, mas posso chegar perto. Tenho todo o potencial. A partir de agora, tenho que me cuidar mais, trabalhar bastante. Meu time vai fazer pré-temporada na Áustria. Quero chegar bem e dali para frente buscar o alto nível para voltar perto do que eu era antes.
Você deixou o Flamengo recentemente. Como foi esse acordo?   
Só assinei uma carta me dando a liberação dos treinos. O Machado que está resolvendo tudo. Acho que não posso abrir mão de algumas coisas.
Por fim, o que você diria para torcida do Flamengo?   
Obrigado por tudo, pelos momentos bons que tive no clube, quero agradecer à diretoria. Vou levar para o sempre os dias em que gritaram meu nome. É um clube que aprendi a gostar, me tornei um torcedor flamenguista, posso dizer isso. Foi uma torcida que sempre ajudou o time, principalmente na Copa do Brasil. Valeu a pena.

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