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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Um ano após trauma, Lais quer morar em SP, mas sofre com acessibilidade


Ex-ginasta e esquiadora segue com sessões diárias de fisioterapia e comemora melhora na sensibilidade dos membros superiores após tratamento com células-tronco

Por Rio de Janeiro
Lais souza (Foto: Arquivo Pessoal)Lais faz fisioterapia em São Paulo nesta terça com auxílio de Denise Lessio (Foto: Arquivo Pessoal)
Em um ano, o conceito de vitória ganhou novos significados. Se antes a primeira ideia era associada a pódios e medalhas, agora Lais Souzaencara pequenos progressos físicos de forma parecida como vivenciava seu principais feitos como atleta. Desde 27 de janeiro de 2014, quando se acidentou em uma pista de esqui durante os treinamentos para os Jogos de Sochi, a ex-ginasta superou os momentos mais críticos de sua recuperação e ainda luta para recuperar os movimentos corporais do pescoço para baixo. As evoluções recentes – principalmente o aumento da sensibilidade nos membros superiores - a permitem sonhar com dias ainda melhores, e os planos mostram objetivos claros: um deles é voltar a morar no Brasil, tendo São Paulo como casa.
Nesta terça-feira, Lais está na capital paulista realizando uma bateria de exames para acompanhar sua condição física. Em fevereiro ela voltará ao Jackson Memorial Hospital, em Miami, onde realizou três séries de aplicações de células-tronco no ano passado, e será reavaliada pela equipe médica local. Só com base na análise destes dados é que as próximas etapas do tratamento serão definidas. Por enquanto, no Brasil, ela segue fazendo fisioterapia diariamente e comemorando as pequenas conquistas.
 Tenho a sensação de que meu corpo não para, que está sempre tentando contrair
Lais Souza
- Minha sensibilidade está bem melhor. Ainda não tenho a parte motora, mas a musculatura no bíceps, no antebraço e na mão está bem mais forte. É o maior progresso que venho sentindo. Tenho a sensação de que meu corpo não para, que está sempre tentando contrair. São minhas vitórias agora. Antes eu tinha movimento, força, uma entrega física, foco nas competições, acrobacias e tal. Hoje é diferente, é um foco mais interno no meu corpo, em tudo que sinto de diferente, cada pequena diferença. Eu sempre tenho o “plano A” de andar, caminhar, mas foco no meu dia a dia, no meu tratamento e na fisioterapia. Estou vivendo um dia após o outro, agora não posso ter erro – disse Lais, por telefone, ao GloboEsporte.com.
 A ex-ginasta chegou ao Brasil no dia 13 de dezembro, data em que completou 26 anos. Desde então segue uma rotina complicada, já que além das sessões de fisioterapia ela cumpre uma série de compromissos com patrocinadores e imprensa. Apesar da correria, Lais comemora a boa recepção que teve dos compatriotas.
Lais souza (Foto: Arquivo Pessoal)Lais vê aumento da sensibilidade e musculatura mais forte nos membros superiores (Foto: Arquivo Pessoal)
- Na verdade eu vim sentir o que estava acontecendo no Brasil, vim perceber qual seria a dificuldade. Algumas coisas surpreenderam, como o carinho das pessoas. O que estamos tendo de retorno e escutando todos os dias, que as pessoas estão rezando e pedindo para que eu melhore... Tem sido muito bom, tirando os problemas que estamos tendo.
Se o contato nas ruas está sendo positivo, com muitas mensagens de carinho e apoio, a logística ainda é um grande problema. O deslocamento em São Paulo foi facilitado pela doação de um carro adaptado pelo apresentador de TV Luciano Huck, mas a falta de acessibilidade na cidade é um grande obstáculo. 
Lais souza (Foto: Arquivo Pessoal)Lais recebeu recentemente a visita de Daiane dos Santos, que ajudou a alimentá-la (Arquivo Pessoal)
A fisioterapeuta e amiga Denise Lessio conta que qualquer simples deslocamento é complexo devido à má qualidade do asfalto, e os embarques e desembarques exigem tempo e paciência, já que ainda são poucos os lugares que possuem rampas e adaptações para receberem pessoas com mobilidade limitada. Esta é, inclusive, uma das grandes dificuldades na busca por um apartamento para alugar.
- Há lugares que ela frequentava e que hoje não é mais possível porque não tem uma entrada própria. Fora que as ruas são muito esburacadas. O carro está ajudando muito, mas mesmo a 20 km/h ainda chacoalha muito, ela bate a cabeça. É preciso muito cuidado para ela não se machucar durante o transporte, e fazer tudo com muita antecedência já prevendo esse tempo do trajeto lento. É complicado - desabafou Denise.
As dificuldades não se limitam ao deslocamento. Se nos Estados Unidos uma cuidadora auxiliava a mãe de Lais, agora Dona Odete acumula todas as atividades. O sacrifício em prol dos cuidados com a filha começaram exatamente há um ano, quando ela abandonou o trabalho de vendedora para viajar a Salt Lake City e acompanhar a recuperação em tempo integral.
- Eu tinha um emprego, mas larguei tudo para viver a vida dela. Eu tenho muita fé, e é o que me dá mais segurança. Eu agradeço todos os dias por qualquer sensibilidade, cada pouquinho que vai acontecendo, mesmo que devagar, porque ela está aqui comigo, viva e com saúde. É muito puxado porque tem as sondas, muitos remédios e é tudo muito caro. Gasta-se muito com um tetra (tetraplégico). Graças a Deus estamos tendo ajuda - disse Odete. 
No dia 13 de janeiro foi publicado no Diário Oficial da União a sanção da presidente Dilma Rousseff à lei que concede pensão vitalícia a Lais. Aprovada pelo Congresso Nacional no fim do ano passado, a lei proposta pela deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP)  prevê pensão mensal e vitalícia a Lais em valor equivalente ao limite máximo do salário de benefício do Regime Geral de Previdência Social: R$ 4.390,24. Como a sanção é muito recente, a família ainda não teve acesso ao dinheiro. Por enquanto, a atleta está se sustentando com recursos fornecidos pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), por patrocinadores e com a verba arrecadada na campanha “Força, Laís” – cerca de R$ 200 mil, de acordo com o pai da atleta.
Lais Souza, prêmio Brasil Olímpico (Foto: André Durão / Globoesporte.com)Lais Souza foi homenageada na cerimônia do Prêmio Brasil Olímpico (Foto: André Durão / Globoesporte.com)
No dia 27 de janeiro de 2014, Lais treinava com a também ex-ginasta Josi Santos e o técnico Ryan Snow em uma pista de esqui em Salt Lake City. As brasileiras já haviam participado de todas as competições classificatórias do esqui aéreo para as Olimpíadas de Inverno de Sochi e aguardavam cortes das equipes que excediam o número limite de atletas por país com índice para confirmarem a vaga inédita para o Brasil na modalidade. O cenário se confirmaria, mas apenas Josi teria a oportunidade de competir. Naquela segunda-feira Lais perdeu o controle dos esquis e chocou-se com uma árvore, o que provocou uma torção na coluna cervical. 
O primeiro boletim médico divulgado pelo Time Brasil confirmava a perda dos movimentos dos braços e pernas, mesmo após as cirurgias que realinharam a coluna. Lais superou o risco de morte, conseguiu respirar sem a ajuda de aparelhos e deixou a UTI, sendo depois transferida para o Jackson Memorial Hospital, em Miami. Na nova fase da recuperação, a paulista passou a integrar um projeto pioneiro com células tronco. Após três sessões de aplicações, ela viajou ao Brasil pela primeira vez desde o acidente.
homenagem a lais souza sochi jogos de inverno (Foto: Reprodução/Facebook)À distância, Lais foi homenageada pela delegação brasileira nos Jogos de Sochi (Foto: Reprodução/Facebook)
- Os primeiros dias foram terríveis porque ela ainda estava correndo risco de vida, foram muito desgastantes. A liberação dela do aparelho de respiração foi a grande alegria, o alívio para a gente que estava distante. Depois fomos acompanhando as melhorias com relação aos movimentos, têm sido poucas e gradativas, mas graças a Deus, para o bem. Ela ter voltado para o Brasil foi muita alegria, apesar de a ter visto pouco devido a tantos compromissos. Mas estamos todos mantendo a esperança, ainda mais com essa possibilidade forte dela voltar a morar aqui perto  disse o pai, Antônio, que ainda vive com os dois irmãos de Lais em Ribeirão Preto.

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