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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Cinco anos após chacina na Paraíba, sobreviventes reconstroem família

Meninos sobreviventes da 'Chacina do Rangel' hoje moram com uma tia.
Na noite do crime, quatro pessoas foram assassinadas.

Wagner LimaDo G1 PB
O ofício de trabalhar como gesseiro escolhido por um jovem de 19 anos é mais do que a escolha de uma profissão, é uma reverência ao pai. Sobrevivente da 'Chacina do Rangel', como ficou conhecido o crime em que foram assassinadas cinco pessoas da mesma família, o jovem precisou de terapia e força de vontade para tentar amenizar as lembranças da noite do dia 9 de julho de 2009. Aquele dia, há exatos cinco anos, marcou definitivamente o endereço da antiga casa simples, localizada no bairro do Rangel, em João Pessoa, onde hoje existe uma quadra para recreação das crianças do bairro.
Após a conclusão das investigações, os autores do crime, Carlos José dos Santos e Edileuza Oliveira, foram condenados, em 2010, a 116 e 120 anos de prisão, respectivamente, e devem passar 30 anos presos, limite máximo de pena permitido pela legislação brasileira, sem direito a progressão ao regime semi-aberto por causa do total da pena a que foram condenados. Os dois eram vizinhos das vítimas e resolveram se vingar por conta de uma discussão entre crianças iniciada por causa de uma galinha.
Novo local casa chacina do rangel (Foto: Walter Paparazzo/G1)No local onde era a casa da família vítima hoje
existe uma quadra (Foto: Walter Paparazzo/G1)
Ao lado do irmão de 12 anos, o jovem de 19 anos reconstruiu o núcleo familiar com uma tia que os adotou. Na época ainda adolescente, o filho mais velho do casal percebeu quando a casa foi invadida por um casal vizinho e escondido debaixo da cama viu seu pai, Moisés Soares Filho, três irmãos e a mãe, Divanise Lima dos Santos, grávida de gêmeos, serem assassinados e partes dos corpos serem espalhadas.
Durante quase quatro anos, os dois sobreviventes passaram por acompanhamento psicológico na Clínica Escola do Centro Universitário de João Pessoa – Unipê, no bairro de Água Fria, em João Pessoa. A tia conta que o mais velho chorava muito e a terapia ajudou a enfrentar a dor, o trauma e a saudade. “No começo foi muito difícil para eles. Aos poucos foram superando a tristeza. Só o mais velho que, às vezes, chora muito lembrando de tudo que ele viu”, disse a tia.
No entanto, segundo a assessoria do Centro Universitário de João Pessoa – Unipê, o acompanhamento feito na Clínica-Escola de Psicologia foi suspenso por motivos pessoais dos pacientes. “A Clínica-Escola informou ainda que está à disposição para atendê-los, caso queiram retomar o acompanhamento psicológico”, frisou.
Com sessões semanais de terapia antes da interrupção do tratamento, os dois irmãos conseguiram o acompanhamento que não tiveram na rede pública. A família, que se enquadrava nos critérios de baixa renda estabelecidos pelo governo federal, era atendida pelo Centro de Referência da Assistência Social (Cras) do Rangel até a chacina, no entanto, após a tragédia, segundo a coordenadora atual da unidade, Gerlândia Carvalho, não houve acompanhamento.
Gerlândia Carvalho explicou que, devido o caso ter se tornado sigiloso, o poder público municipal perdeu o contato com as vítimas. “Eles recebiam Bolsa Família e eram acompanhados pelo Cras, mas com a mudança de bairro não houve acompanhamento. O que a gente soube foi através de relatos de vizinhos sobre os destinos dos filhos do casal morto”, frisou.
Rotina de estudos e trabalho
A tia dos órfãos da 'Chacina do Rangel' disse que atualmente eles se revezam em atividades cotidianas que envolvem esporte, estudo e trabalho. O mais jovem, de 12 anos, estuda em tempo integral o 5º ano do ensino fundamental, das 7h às 16h e, segundo a mãe adotiva, “se dá muito bem em matemática”, embora não fale ainda o que pretende fazer quando terminar o ensino médio.
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Sobrevivente da chacina do Rangel, em João Pessoa (Foto: Francisco França / G1)Garoto de 12 anos, sobrevivente da Chacina tem
marca dos golpes de facão no rosto
(Foto: Francisco França / G1)
No rosto, o adolescente de 12 anos traz as marcas dos golpes de facão que recebeu dos agressores e, na memória, a certeza de que é um dos sobreviventes da 'Chacina do Rangel'. Segundo a tia, o adolescente não nutre desejo de vingança nem revolta. Nem o mais velho, atualmente com 19 anos, verbaliza interesse em revidar a violência que sua família sofreu. “Graças a Deus eles não falam em vingança. Eu conversei muito com eles. Eles estão seguindo a vida deles normal”, reforçou.
Tia por vínculo afetivo, por ser esposa do tio dos dois órfãos, e mãe por opção, ela conta que um dos momentos mais emocionantes ocorreu ainda no Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, no primeiro contato com o adolescente após a tragédia, na época com 7 anos. “Ele ainda no hospital me perguntou se eu iria ser a mãe dele. Esse foi um momento marcante para mim. Ele me trata como mãe desde o primeiro dia e isso acontece até hoje”, frisou.
Relembre o caso
Na noite do dia 9 de julho de 2009, a residência do casal Moisés Soares Filho e Divanise Lima dos Santos, no bairro do Rangel, em João Pessoa, foi invadida por Carlos José dos Santos e Edileuza Oliveira, vizinhos que resolveram se vingar do casal por conta de uma discussão entre os filhos deles. A motivação da briga entre as crianças e, consequentemente da chacina, teria sido a disputa por uma galinha.
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Julgamento do caso da chacina do Rangel em João Pessoa (Foto: Francisco França / G1)Carlos José e Edileuza foram condenados pelo
crime (Foto: Francisco França / G1)
De posse de um facão, Carlos desferiu golpes contra Moisés, inclusive, cortando a mão e jogando em cima do guarda-roupa. Em seguida, a vítima foi degolada. Após o assassinato de Moisés, segundo as conclusões do inquérito da Polícia Civil apontaram, Edileuza Oliveira pegou o facão do esposo e desferiu golpes que resultaram na morte de Divanise Lima dos Santos grávida de gêmeos, 35 anos; Rayssa dos Santos, 2 anos; Ray dos Santos, 4 anos; e Raquel dos Santos Soares, 10 anos. Outro filho do casal, 7 anos, foi levado para o Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena em estado grave com cortes no rosto, pescoço e nunca, mas conseguiu sobreviver.
Devido aos gritos, os vizinhos acionaram a Polícia Militar que ainda encontrou Divanise viva e contou a um dos policiais que Edileuza tinha matado as crianças e atingido ela com o facão.
Toda a chacina foi acompanhada por um adolescente, na época com 14 anos, que durante a invasão da casa se escondeu debaixo da cama e acompanhou o assassinato do pai, da mãe grávida e de mais dois irmãos, além da tentativa contra o irmão de sete anos. Presos, o casal Carlos José e Edileuza foi levado a julgamento nos dias 16 e 17 de setembro de 2010. Carlos foi condenado a 116 anos e Edileuza a prisão por 120 anos de reclusão,. Entretanto, eles devem passar 30 anos presos, limite máximo de pena permitido pela legislação brasileira, sem direito a progressão ao regime semi-aberto por causa do total da pena a que foram condenados.
À época do julgamento, o advogado criminalista Abraão Beltrão, explicou que, por ser um crime hediondo, a progressãode pena só começaria começa quando se atinge 40% (2/5) da pena, cálculo que acontece sobre a pena total, ou seja, 48 anos, anos no caso de Edileusa, e 46 anos,  no caso de Carlos José, superando o limite de 30 anos de pena.

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