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sábado, 22 de agosto de 2015

Após filme, 'ceguinhas de Campina Grande' lamentam esquecimento

Documentário 'A pessoa é para o que nasce' foi lançado em 2004.

Atualmente, Maroca, Poroca e Indaiá moram na casa de uma conhecida.

Rammom MonteDo G1 PB
 Há 11 anos, as 'ceguinhas de Campina Grande' tornavam-se conhecidas em todo o Brasil após o lançamento do filme 'A pessoa é para o que nasce', de direção de Roberto Berliner. Porém, a empolgação durou pouco tempo. Mais de uma década depois, as irmãs Poroca, Maroca e Indaiá, de 72,70 e 64 anos, respectivamente, relatam o esquecimento do público após terem rodado o país com shows e tocado com grandes personalidades da música, como o baiano Gilberto Gil, por exemplo. Hoje, elas vivem em uma casa no bairro do Catolé, em Campina Grande, na Paraíba, recebendo cuidados de uma conhecida.
“Depois do filme, esqueceram da gente. Quando era na época do filme, chamavam para todo canto, depois esqueceram e não nos chamaram mais para canto nenhum. Eu queria que chamasse porque a gente está esquecida, ninguém chama mais.Sonhamos em voltar a tocar pelo Brasil. Para ter outra viagem, para a gente espairecer mais, mas não chamaram mais, deixaram para lá”, disseram as irmãs.
Ceguinhas de Campina Grande (Foto: Rammom Monte / G1)Ceguinhas de Campina Grande lamentam esquecimento após sucesso de filme (Foto: Rammom Monte / G1)
As irmãs foram descobertas pelo diretor Roberto Berliner quando pediam esmolas nas ruas do Centro de Campina Grande. A gravação do filme começou em 1997 e terminou apenas em 2004, ano do lançamento. O documentário conta a história delas e como elas passaram a ser conhecidas após o lançamento. Com o dinheiro arrecadado na época da fama, elas conseguiram comprar a casa própria no bairro de José Pinheiro, também em Campina Grande. Mas com o passar do tempo, elas passaram por alguns problemas, inclusive maus tratos por parte de uma parente.
“Ficaram maltratando, queriam me jogar de cima da cama, não almoçávamos direito, de noite a gente comia um pão seco para dormir e eles pegavam o dinheiro da gente só para gastar”, disse Maroca.
Ceguinhas de Campina Grande (Foto: Rammom Monte / G1)Irmãs hoje moram com nova família
(Foto: Rammom Monte / G1)
Novo lar
Por conta dos maus tratos, as irmãs decidiram procurar um novo lugar para morar. E foi com uma conhecida, que ajudava a tomar conta delas, que elas encontraram um novo lar. A cozinheira Walquiria Calisto era amiga de uma outra mulher que trabalhava na casa da filha de Maroca. Foi assim que Walquiria conheceu as três e, mesmo após a morte da mulher que cuidava delas, manteve contato com as 'ceguinhas de Campina Grande'.
“Elas foram à minha procura na minha casa e me perguntaram se podiam morar comigo, porque não estavam mais aguentando a vida que tinham e eu conversei com meu marido, ele concordou e desde então elas estão com a gente, vai fazer um ano já”, relatou Walquiria, que completou falando o que as irmãs representam para ela.
“Tenho elas como se fossem minhas tias, como se fizessem parte da minha família, já fazem parte da minha vida. Eu não me imagino mais sem elas, acho que eu nasci para levar isso adiante”, disse emocionada.
Ceguinhas de Campina Grande (Foto: Rammom Monte / G1)Irmãs foram maltradas pela filha de uma delas
(Foto: Rammom Monte / G1)
Para Maroca, mudar de lar proporcionou uma vida melhor. “Eu pedi para morar com eles, porque eu não aguentava mais. Viviam maltratando a gente direto. Aí eles foram e pediram a guarda da gente, ainda está na mão do advogado. Vai fazer um ano que a gente mora aqui e nunca ficamos sem jantar nenhuma vez. A gente nunca pensou que ia encontrar uma pessoa assim para tomar conta da gente. A gente com a família nunca tinha prazer de nada. Vivia chorando direto, toda noite eu peço saúde para eles. ”, desabafou Maroca.
Indaiá foi mais além: “Ela não é da família, mas é como se fosse uma mãe”.
Passatempo: ouvir músicas
Sem agenda para shows e viagens, as irmãs Poroca, Maroca e Indaiá passam o tempo de outra forma: escutando músicas nas rádios. E uma das canções preferidas delas é “Cuida bem dela”, da dupla sertaneja Henrique e Juliano. Elas até se arriscam a cantar, mas conseguem reproduzir apenas o trecho que dá nome à música. Outro artista que elas gostam é o cantor paraibano Luan Estilizado. Mas elas já adiantam: conheceram há pouco tempo e ainda não aprenderam as letras das canções.
Ceguinhas de Campina Grande (Foto: Rammom Monte / G1)Elas usam o ganzá (instrumento musical) para tocarem as suas músicas (Foto: Rammom Monte / G1)
Infância sofrida e sonhos
Quem vê as três irmãs bem cuidadas hoje, não imagina a vida sofrida que elas já tiveram. Cegas desde o nascimento, elas rodaram várias cidades do Nordeste em busca de uma vida melhor. Mas a realidade sempre foi a mesma: sofrimento e pedido de esmolas nas ruas.
“Passamos dificuldades demais. Era pedindo, tinha dia que comia e tinha dia que não. A vida da gente foi só de sofrimento, pedindo no meio da rua. O povo ficava colocando papel na bacia, dando tapa na cabeça da gente”, revelou Maroca.
A vida da gente foi só de sofrimento, pedindo no meio da rua. O povo ficava colocando papel na bacia, dando tapa na cabeça da gente"
Maroca, sobre a época em que pedia esmola
Para Indaiá, o tempo que passou morando na rua trouxe muito sofrimento. “Eu mesmo ficava tão revoltada quando a gente pedia na rua. Eu só faltava chorar no meio da rua, de tão revoltada que eu era”, desabafou.
A vida de pedir esmolas nas ruas começou logo cedo. Maroca revela que começou a pedir na rua quando tinha sete anos. Poroca tinha oito. Ja Indaiá foi levada para a rua ainda mais cedo, com sete meses. E foi durante o período em que pediam esmolas, que elas aprenderam a música que as fiz rodar o país fazendo shows: “Atirei no mar”.
“Depois que a gente aprendeu, a gente ficava tocando com o ganzá, o povo ouvia e dava as esmolas. Eles escutavam e paravam para olhar”, disse Maroca.
E a cena chamou a atenção de uma pessoa em especial: o diretor Roberto Berliner. “Chegou Roberto, do Rio de Janeiro, aí viu a gente cantando, aí disse que a gente merecia fazer um filme. Quer dizer, ele só disse para mim depois. Aí ele, fez o filme, o filme começou em 97 e passou sete anos para terminar. A gente foi juntando um dinheiro e comprou a casa” explicou.
Ceguinhas de Campina Grande (Foto: Rammom Monte / G1)Irmãs dizem que se sentiam como prisioneiras
(Foto: Jackson Rondinelli / TV Paraíba)
E com o filme, vieram as viagens. Foram muitas. Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, entre outras. Elas relatam gostar de todas, mas há uma que as agradou mais. E foi justamente a capital baiana. E a explicação é simples.
“Salvador. Foi o lugar onde a gente foi mais aplaudida. A gente foi para muito lugar, mas o lugar que foi mais aplaudido foi em Salvador”, disse Maroca, toda orgulhosa.
Apesar de ter viajado boa parte do Brasil e ter conseguido comprar a casa própria, Maroca revelou ainda ter um sonho não realizado.

“O sonho que eu queria realizar era rever uma irmã da gente que nossa mãe deu quando ela tinha 8 meses de idade. Se ela tiver viva, ela está com 64 anos. Ela deu a nossa irmã com oito meses, desde esse dia eu não a vi mais. Ela deu ela em Serra de São Pedro, perto de Juazeiro do Norte. Foi em uma festa que a gente foi. A gente estava lá, aí uma mulher pediu ela e ela deu. Eu tinha muita vontade de vê-la. Nossa mãe não tinha condição, a gente não parava em lugar nenhum, só vivia andando em cima de caminhão. Agora se fosse hoje ela não tinha dado não. Quando ela deu, eu tinha sete anos, mas se fosse agora, ela não tinha dado não”, disse.
E com o tempo elas vão mostrando que a pessoa pode até ser para o que nasce, mas que a história se renova a cada dia e sempre pode haver um dia melhor.
“Eu tinha uma esperança. Tinha gente que dizia que isso nunca iria acontecer, eu dizia que ia, porque há um maior”, finalizou Maroca.
Ceguinhas de Campina Grande (Foto: Rammom Monte / G1)Sonho de Maroca é reencontrar uma irmã delas que foi entregue para outra família ainda quando era um bebê (Foto: Rammom Monte / G1)

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