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domingo, 10 de maio de 2015

"Estou condenada a viver", diz uma das mães que tiveram filhos assassinados e pedem justiça


#DiaDasMães - Elas mostraram detalhes de uma rotina de luta incansável; em um discurso unânime, aconselham que mães de filhos vivos os amem, respeitem, os aceitem e aproveitem mais; "a gente nunca sabe até quando tem eles"

Cidades | Em 09/05/15 às 17h51, atualizado em 10/05/15 às 01h23 | Por Ewerton Correia
Reprodução/ Montagem: Portal Correio
Justiça e amor eterno são promessas aos filhos
O olhar de Tereza Cristina na porta é de alguém que não pôde dar adeus à filha de maneira natural. Um tiro de 380 na cabeça arrancou a menina evangélica do seio materno e silenciou Rebeca Cristina em 2011. Hoje, quase quatro anos depois, o coração inquieto da mãe da estudante que foi estuprada e assassinada aos 15 anos clama por justiça em um volume mais alto que qualquer disparo possa produzir.



Por mais um ano, o Dia das Mães não vai ter a garota cheia de sonhos que em todo segundo domingo de maio fazia questão de se jogar sobre a cama da mãe logo cedo só para declarar todo seu amor. Sobram lembranças. “Ela, pela manhã, quando acordava, a primeira coisa que dava era aquele mergulho na cama, eu via a hora a cama quebrar com a gente, me desejava feliz Dia das Mães, beijava, a gente ficava conversando abraçadinha”, disse ela.

Tereza também lembra que no domingo mais especial de maio, Rebeca sempre brincava e, entre sorrisos, dizia que não tinha nenhum presente a dar. A mãe respondia que ela era o maior presente e então a filha entregava alguma lembrança. Pelo quarto ano, esse momento sublime não existe mais e na data, Rebeca é a homenageada. “Vou ao cemitério levar flores e chorar no túmulo dela, é o inverso”.
Tereza Cristina exibe um dos uniformes da filha ao lembrar do último dia de vida dela
FotoTereza Cristina exibe um dos uniformes da filha ao lembrar do último dia de vida dela
CréditosEwerton Correia
Mãe guarda com carinho e saudade tudo o que foi dela e costuma borrifar os perfumes sobre o travesseiro nas noites de maior saudade
FotoMãe guarda com carinho e saudade tudo o que foi dela e costuma borrifar os perfumes sobre o travesseiro nas noites de maior saudade
CréditosEwerton Correia
A luta de Tereza Cristina, que segundo ela mesma, perdeu a identidade ao ser mais conhecida como ‘a mãe de Rebeca’, é fortalecida pelo sorriso da filha estampado nas fotos que vêm acompanhadas pelo clamor de justiça.
Outro desafio vivido atualmente pela mãe é voltar para a casa de onde Rebeca saiu de vez. Desde a morte da estudante, ela, o esposo e o filho caçula moram em uma casa alugada e neste ano será a primeira tentativa de um retorno doloroso, onde cada cômodo tem um pouco da menina assassinada.
O caso Rebeca Cristina já passou por vários profissionais, as investigações estão agora sob o comando do delegado Glauber Fialho, o sétimo a dar continuidade aos trabalhos que até então não localizaram o assassino.
Para este domingo (10), a mãe de Rebeca não tem dúvidas sobre qual seria o melhor presente. “Se eu não dissesse que o melhor seria a presença dela, eu estaria mentindo, mas hoje, do jeito que eu venho sofrendo há quase quatro anos, quero a justiça; se me mostrassem a pessoa que fez isso, seria meu presente”, completou emocionada.
Sem a filha, sem o neto
Flores e lágrimas sobre o jazigo, sede de justiça e pura saudade no coração. Esses são detalhes de um dia inteiro dedicado ao luto. Pela sexta vez é assim deve ser celebrado o Dia das Mães para Hipernestre Carneiro, sem a filha Aryane Thaís e o neto ou neta que a estudante esperava.
Em abril de 2010, a jovem foi encontrada estrangulada às margens da BR-230 e o acusado é o namorado dela e pai da criança que perdeu a vida junto à mãe, Luiz Paes de Araújo Neto, que foi condenado a 17 anos e seis meses de prisão, mas não cumpriu pena pois aguarda o julgamento do último recurso em liberdade.
O segundo domingo de maio é repleto de lembranças. “Em todos os anos, esse dia era comemorado na casa da minha mãe, com os filhos, netos e bisnetos, mas depois da morte dela, não existe mais essa data, não existem mais presentes nem a casa cheia. Hoje, este dia é todo no cemitério”, disse Hiper, assim chamada por amigos e parentes que a tentam confortar pela perda da filha.
Há cinco anos sem a cumplicidade e o carinho da filha caçula, ela tenta aos poucos reconstruir uma rotina que segundo ela nunca será a mesma. De volta ao trabalho e aos afazeres domésticos, ela ainda encontra tempo para clamar por justiça e unir seu grito ao de outras mães que também perderam filhos de forma violenta e sabem exatamente a lacuna deixada por aquele “eu te amo”, que neste domingo não vão ouvir.
Hipernestre lembra da cumplicidade na relação delas
FotoHipernestre lembra da cumplicidade na relação delas
CréditosReprodução/ Facebook
Hipernestre criou assim, desde o ano da partida de Aryane, ou Thaisinha, como era mais chamada, o grupo ‘Mães na Dor’, onde as integrantes se apoiam, se reúnem e dividem a angústia e a ansiedade por cada julgamento dos acusados de ceifar a vida dos filhos. Unidas, elas falam a mesma língua e em nome da justiça lutam para que o grupo não precise receber novas mães.
Mesmo na dor, Hiper não tem dúvidas sobre o que a fortalece e a faz continuar. “É através da luta pela justiça, porque lembro que, quando aquele corpinho frio estava descendo ali, naquele buraco [se referindo ao sepultamento], eu olhei para ela e disse ‘filha, enquanto eu viver, vou clamar por justiça’; vivo em função disso”.
Ela também não hesita quando fala sobre qual seria o melhor presente no domingo das mães e revela um do desejo do íntimo. “Gostaria de fazer uma visita no céu e ter o direito de dar meu último abraço, meu último adeus e diria tudo que eu deixei de dizer, ela sabe o tamanho do meu amor por ela, ela sempre está comigo; quero ficar em paz, não quero maldade, não quero vingança, quero é justiça e assim poder dizer a Deus ‘consegui, estou pronta, pode me levar’”, completou.
O primeiro Dia das Mães sem Natan
“Da mesma forma que um doente em estado terminal é condenado a morrer, eu estou condenada a viver”. A frase é de Dina Rodrigues, ela lembra bem do momento em que teve seu único filho nos braços pela primeira vez, e de como aquele momento foi mágico, mas também não esquece que, nos mesmos braços de mãe, Higor Natan se calou para sempre após ser alvejado na entrada da garagem do apartamento no bairro dos Bancários, na Zona Sul de João Pessoa, onde morava com os pais. Ele se foi aos 21 anos. O crime aconteceu em outubro de 2014. Ela também quer justiça.
A luta incansável para ver os responsáveis pela morte do rapaz atrás das grades mudou a vida de Dina para sempre. Pouco a pouco, ela tenta remontar as peças da vida de mãe que parecem ter desmoronado com os disparos. O Dia das Mães para ela será como todos os domingos desde a morte de Natan; no cemitério. 
“Se eu pudesse, eu sumia, mas todos os meus domingos são no cemitério; é um local que me traz uma paz para conversar um pouco com ele. É difícil demais”, detalhou.
A coragem que a mãe de Rebeca teve para decidir voltar para a casa onde morou, Dina ainda não tem e não sabe quando terá, não há desejo. Ver a garagem onde aconteceu a despedida forçada faz tudo vir à cabeça da mãe, como em um filme. Passar na rua da antiga moradia também está fora de cogitação.
Ela voltou a trabalhar e a cozinhar. Em um sorriso muito breve, ela lembra que o filho amava macarronada e que segundos antes do crime, teria ido até a garagem para chamá-lo; o rapaz havia chegado do trabalho para jantar. Daquela noite até então, sempre sobra um prato sobre a mesa e a terceira porção esfria na panela.
“Eu vivia 24 horas por esse menino e mesmo com tudo que eu presenciei, agradeço a Deus, pois o último rosto que ele viu foi o meu”, disse Dina, ao também revelar que tinha medo de ter outros filhos por não saber se conseguiria dividir o grande amor por Natan.
Segundo a mãe, as viagens em família lembram muito o jovem

FotoSegundo a mãe, as viagens em família lembram muito o jovem
CréditosReprodução/ Facebook
Mesmo assim, ele conquistou irmãos na vida. Os amigos não se afastaram com a morte, mas buscam apoiar Dina e sempre estão por perto. Muitos pertences de Natan foram divididos entre eles, cada um levou consigo um pouco dele. “Recebo muito apoio dos amigos, todos estamos revoltados com tudo”.
Todas as lembranças estão com a mãe de Higor Natan, entre as físicas permanecem os dentes de leite, os primeiros sapatos e os presentes de felizes maios passados, entre memórias estão as viagens, os sorrisos e as inúmeras brincadeiras, que, segundo Dina, eram marcas registradas dele.
Primeiros pertences de Natan ainda estão com a mãe

FotoPrimeiros pertences de Natan ainda estão com a mãe
CréditosReprodução/ Facebook
“Tem hora que nem imagino que ele se foi, sinto o perfume dele, a presença dele, o abraço; tenho fé em Deus e a certeza que ainda vou me encontrar com Natan, por mais que eu sofra, eu tenho certeza que vou ver meu filho, vou lutar aqui, preciso dessa justiça”, completou. 

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