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domingo, 23 de novembro de 2014

Mais de 70 mil bebês na PB realizam exames para diagnosticar cardiopatia

Programa 'Círculo do Coração' é inspirado em lei estadual de 2011.

O exame de oximetria é obrigatório na Paraíba desde 2012.

Wagner LimaDo G1 PB
Os gêmeos David e Daniel passaram por cirurgia por conta de cardiopatia congênita. O exame preventivo foi fundamental para evitar maiores complicações, diz a tia Evanilda Alves dos Santos (Foto: Wagner Lima/G1 PB)Os gêmeos David e Daniel passaram por cirurgia por conta de cardiopatia congênita (Foto: Wagner Lima/G1 PB)
Os gêmeos David e Daniel tiveram no primeiro ano de vida uma prova de fogo: deslocamentos de aproximadamente 376km da cidade de Brejo do Cruz, no Sertão paraibano, até João Pessoa; e medicamentos diários e submissão a exames constantes. Muitos desses exames tinham como objetivo monitorar uma cardiopatia congênita, descoberta nas primeiras horas de vida. Para cada 1 mil bebês nascidos na Paraíba, segundo a Rede Estadual de Cardiologia Pediátrica vinculada ao governo do Estado, 14,2 têm algum tipo de cardiopatia.
De janeiro de 2012 até novembro de 2014, o programa possibilitou que 70.094 bebês fossem examinados, segundo a coordenador da rede, Cláudio Régis. Na Paraíba, o 'Círculo do Coração' é realizado pelo governo do Estado em parceria com a Organização Não-Governamental (Ong) Círculo do Coração, do Recife, em Pernambuco.
A constatação de cardiopatias em bebês no estado é possível por conta do programa 'Círculo do Coração', originado pela lei estadual de nº 9581 do deputado Caio Roberto (PR), que obriga o poder público a realizar o exame de oximetria em recém-nascidos a fim de diagnosticar precocemente as doenças.
A lei, aprovada em 2011, surgia como resposta à chamada “relação macabra” do Ministério Público Federal no mesmo ano por conta do óbito de mais de 17 crianças cardiopatas no estado. Na época, o órgão cobrou dos poderes municiais, estadual, federal e o Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW) a implantação de serviços voltados aos bebês cardiopatas.
Cirurgia depois de um ano de viagens
Um ano após a rotina de viagens e exames, David e Daniel estão em recuperação no Hospital Infantil Arlinda Marques, em Jaguaribe, na capital. “Quando eles nasceram em Patos, no exame foi detectado o 'sopro no coração' e a vida da família mudou completamente. Se a gente podia ou não podia, tinha que levá-los para as consultas. Eles tiveram que tomar remédios diários com horário certo, tudo muito regrado”, disse a tia dos gêmeos, Evanilda Alves dos Santos.
 
Se a gente podia ou não podia, tinha que levá-los para as consultas. Eles tiveram que tomar remédios diários com horário certo, tudo muito regrado"
Evanilda Alves dos Santos
tia de gêmeos cardiopatas
Durante mais de um ano,  Evanilda tem se revezado nos cuidados dos sobrinhos com a mãe. “Me dividia com a minha irmã, mãe deles, e como ela está operada, eu e minha mãe estamos aqui há dias nos revezando nos cuidados a eles no hospital”, disse.
A tia se tornou uma segunda mãe para as crianças. Por morar na casa ao lado da irmã, Maria Evanúzia dos Santos, ela conseguiu dividir as atividades de atenção aos sobrinhos que nasceram com cardiopatia congênita. Por conta dessas demandas, desde 2012, o 'Círculo do Coração' identificou 996 casos diagnosticados com cardiopatias; teve1.451 pacientes internados no ambulatório; e 322 cirurgias com custos que variam de R$ 30 mil a R$ 40 mil efetuadas.
Diagnóstico tardio
A sensação de cansaço já fazia parte da rotina de vida de Washington, quando aos dois anos um exame identificou que ele trazia no peito uma doença congênita. Apenas na segunda-feira (17), aos seis anos, o menino apaixonado por andar de bicicleta e jogar bola se submeteu a uma cirurgia para corrigir uma comunicação entre a aorta e a artéria pulmonar. Washington integra uma lista dos casos diagnosticados tardiamente.
Washington só teve o diagnóstico de cardiopatia com dois anos de vida. Esta semana, ele conseguiu fazer a cirurgia (Foto: Wagner Lima/G1 PB)Washington diagnosticou a cardiopatia com
dois anos de vida (Foto: Wagner Lima/G1 PB)
A mãe, Lidiane Duarte de Oliveira, explica que após a cirurgia, ele ficou receoso de se movimentar para evitar dores, mas, segundo ela, já está 'manhoso'. “Ele já tomou banho, está se alimentando bem, mas agora está manhoso. Só fala em ir embora para casa”, diz sorrindo. A expressão de tranquilidade hoje é diferente dos anos anteriores vendo o filho se cansar na maioria das vezes em que corria e brincava.
Mãe de outra criança de 4 anos, Lidiane diz que esses exames são importantes para prevenir problemas ainda maiores tardiamente. “Quando corria demais, ele cansava rápido e dizia que doía. Se eu contar o que a gente passou até descobrir... a sorte foi que uma médica suspeitou e encaminhou ele para um cardiologista”, afirmou.
O exame de oximetria atinge 70% da população de neonatais, segundo o coordenador da Rede Estadual de Cardiologia Pediátrica da Paraíba, Cláudio Régis, porque os outros 30% são de nascimentos em clínicas particulares e partos naturais e residenciais.
Segundo ele, o exame se destina a bebês com mais de 34 semanas de idade gestacional e que não apresentam problemas de desconforto respiratório. A oximetria é feita em bebês 24h após o nascimento. O exame é rápido, variando de 5 a 10 minutos, para identificar a quantidade de oxigênio no sangue utilizando um sensor na mão e pés.
Rede de atendimento a cardiopatias abrange 21 maternidades
Quem nascia na Paraíba com cardiopatia até 2011 encontrava uma rede pública que não dispunha de serviços de atendimento, acompanhamento e cirurgias especializadas para garantir a vida das crianças. Segundo a coordenadora da Rede de Cardiologia Pediátrica Pernambuco-Paraíba, Sandra Mattos, o estado criou em 2011 uma estruturação para 12 maternidades atenderem crianças cardiopatas e três anos depois, a rede já envolve 20 maternidades e um hospital infantil.
Sandra explica que, por meio do convênio, foi possível estruturar a rede e ter uma política pública voltada para a prevenção. “Há três anos tomamos decisões importantes porque não havia a estrutura mínima não só para realizar as cirurgias cardíacas mas para fazer a triagem. Na minha visão hoje não há mais limitação na rede e no projeto. Por isso, voltaremos a abordar o Ministério da Saúde para obter o credenciamento para o serviço pelo SUS", diz.
Hospital Universitário é referência de atendimento (Foto: Rizemberg Felipe/Jornal da Paraíba)HU é um dos centros de referência de atendimento
às crianças cardiopatas na capital
(Foto: Rizemberg Felipe/Jornal da Paraíba)
O serviço atualmente existe nas cidades de João Pessoa por meio da Maternidade Frei Damião, Instituto Cândida Vargas, Hospital Edson Ramalho e Hospital Universitário Lauro Wanderley. No interior, o Círculo do Coração está em  GuarabiraCampina Grande, Esperança, MonteiroPombalPicuí, Princesa Isabel, Itaporanga, Patos, Sousa eCajazeiras.
A rede envolve mais de 200 profissionais nas doze cidades paraibanas e 30 delas na coordenação integrada. Mas, como eles conseguem dar respostas para tamanha demanda diária em cidades diferentes? A justificativa que Sandra Mattos dá é a integração possibilitada com a telemedicina, que é o método de integrar tecnologias de informação e de comunicação para obter dados válidos que garantam aos profissionais a proteção ou redução dos riscos da doença e até recuperação dos pacientes por meio da interação da equipe.
Por meio do sistema criado, há um banco de dados online com as fichas dos mais de 70 mil beneficiados pelo programa, com dados que podem ser acessados por qualquer um dos profissionais envolvidos. “Nós trabalhamos em rede, inclusive, monitorando os procedimentos e evolução no acompanhamento de cada uma das crianças”, frisou.

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