sábado, 12 de abril de 2014

'Parecia pesadelo', diz turista detido por polícia da França em aeroporto

Brasileiro faz viagem pela Europa desde março e pediu ajuda ao Itamaraty.
Analista de comércio exterior relata que foi obrigado a ficar nu em averiguação.

Isabela LeiteDo G1 Campinas e Região
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Analista de comércio exterior Daniel Duarte, morador de Vinhedo (SP), na estação de trem Nice Ville, em Nice, na França (Foto: Daniel Duarte/Arquivo Pessoal)Analista de comércio exterior na estação de trem
Nice Ville (Foto: Daniel Duarte/Arquivo Pessoal)
Um turista brasileiro usou uma rede social para relatar momentos de constrangimento durante uma averiguação da Polícia Aduaneira Francesa após desembarcar no Aeroporto de Nice e ser considerado suspeito de tráfico de drogas. O analista de comércio exterior Daniel Duarte, de 38 anos, diz ter sido humilhado nas cinco horas em que ficou detido e que foi acusado de tentar entrar naquele país com cocaína. Durante a revista no aeroporto, ele foi obrigado a ficar nu e depois foi levado a um hospital da cidade para exames de raio-X. "Queria que tudo acabasse, parecia um pesadelo", desabafa.
O turista já pediu ajuda ao Ministério das Relações Exteriores, por meio do Núcleo de Assistência do Brasileiro no Exterior, mas pretende fazer uma reclamação formal à Embaixada da França, em Brasília (DF), quando retornar ao Brasil na próxima semana. Segundo a assessoria de imprensa do Itamaraty, após análise do pedido e avaliação do caso, o governo brasileiro pode pedir explicações às autoridades francesas.
Barrado
Conhecer a Europa por cerca de duas semanas era um sonho para o analista de comércio exterior, que é casado e tem uma filha de sete anos, mas viaja sozinho desde 26 de março. Ele mora com a família em Vinhedo (SP), no interior de São Paulo. A primeira parada do tour foi em Londres, na Inglaterra. Depois ele seguiu para Amsterdam, na Holanda, e Barcelona, na Espanha, antes de seguir de avião para Nice. O desembarque na cidade francesa foi na terça-feira (8) foi as 16h40 (horário local).
Após passar pelo guichê da imigração e ser entrevistado pela Polícia Aduaneira, o turista foi levado para uma sala, sozinho, e depois revistado diversas vezes, assim como a bagagem que ele levava. "Eles me perguntavam o que eu ia conhecer para eu ficar um dia em Nice, diziam que eu estava com cocaína e que era para eu falar, que seria melhor. Eu dizia: 'podem olhar tudo, eu não uso, não trago na mala, mas eles riam e não acreditavam", conta. Duarte revela ainda que supervisores da polícia também participaram da averiguação no aeroporto. "Eles revistaram tudo várias vezes. Eu não tinha o que falar, foi terrível", completa o analista.
Pulseira de hospital em Nice, na França, para onde brasileiro foi levado após suspeita de tráfico de drogas (Foto: Daniel Duarte/Arquivo Pessoal)Pulseira de hospital em Nice para onde turista foi
levado pela polícia francesa (Foto: Daniel Duarte)
Como os agentes não encontraram indícios de droga com o passageiro e na bagagem,  os policiais disseram que seria necessário levá-lo a um hospital de Nice para exames de raio-X. Antes disso, os agentes entregaram um documento, em português, que dizia que o turista era considerado suspeito de tráfico e informaram que ele teria que assiná-lo. Caso contrário, poderia ficar preso por um ano, além de pagar multa de 3.750 euros. Em nenhum momento o turista recebeu cópia da documentação.
Durante o transporte para o hospital, os agentes ameaçaram algemar o brasileiro. "Eles me disseram que o procedimento padrão era algemar, mas que se eu estivesse calmo, não precisaria. Como eu estava tranquilo, não me algemaram", descreve. Na unidade médica, ele foi submetido a radiografia de abdômen e intestino. Os policiais também pediram que o médico responsável fizesse um exame de toque, mas o procedimento foi negado. "O médico era a única pessoa lúcida no meio disso tudo. Disse que não seria necessário [o exame de toque], que não havia nada comigo", diz o turista.
A averiguação, segundo Daniel Duarte, terminou quando os agentes devolveram o passaporte e a bagagem, e o deixaram na Estação Nice Ville, por volta das 21h, horário local. Ele foi a pé até o hotel. "No final de tudo, não me deram nada. Nenhum papel. Me deixaram na estação, deram minha mala e disseram 'adiós [adeus, em espanhol]'. Nenhuma explicação, nenhum pedido de desculpas", reclama. O analista de comércio exterior diz guardar uma horrível impressão de prepotência e arrogância no primeiro contato com a França e que não tem vontade de retornar ao país. "Apaguei da minha lista", afirma
O "pesadelo" na França, de acordo com o turista, só vai terminar quando ele voltar ao Brasil e reencontrar a esposa, a mãe e a filha de 7 anos. As últimas paradas da viagem foram para o Principado de Mônaco e San Remo (Itália). A chegada está prevista para terça-feira (15). Em nota, a Embaixada da França no Brasil informou que um passageiro insatisfeito com a situação de fiscalização aduaneira  pode, no mesmo instante, formalizar uma reclamação e um formulário é entregue com essa finalidade.
Além disso, o estrangeiro também pode escrever para a direção regional do setor em questão, no caso a Direção Regional Aduaneiro de Nice, ou diretamente para a Direção-Geral das Aduanas e dos Direitos Indiretos. Segundo a Embaixada francesa, toda reclamação recebida é analisada e recebida. No entanto, a postura adotada pelos policiais e o que prevê a legislação local em situações de abordagens como a relatada na reportagem não foi comentada.
Ajuda
O analista de comércio exterior revela que não pediu ajuda do Consulado e da Embaixada do Brasil em Paris, capital francesa, durante a averiguação porque se sentiu extremamente intimidado com a abordagem dos policiais. "No momento em que sai do exame de raio-X, tinham mais três agentes da polícia na sala de espera. Ai achei que a coisa estava ficando séria e pensei em perguntar que direitos que eu tinha, ou se eu podia chamar um advogado ou alguém para me orientar, mas como tinha certeza de que não encontrariam nada, resolvi esperar o médico, que veio com o resultado negativo. Não perguntei nada sobre o Consulado e Embaixada porque fiquei com receio de irritar eles, pois me intimidavam”, completa.
A falta de conhecimento da legislação daquele país também foi motivo de preocupação do turista durante o período em que ficou detido. "O fato de você estar fora de seu país em um lugar onde não entende bem a legislação e ver tudo isso acontecendo é desesperador. Ao contrário do Brasil, onde todos são inocentes até que se prove o contrário, aqui [na França] eu era culpado e tendo que provar a minha inocência. Foi terrível. Até agora não estou 100%. Pensava muito na minha filha, achava que iam me levar e não teria nem mesmo a chance de falar com ela por telefone. Triste demais", desabafa.
A intenção do analista de comércio exterior é fazer uma reclamação formal à Embaixada da França no Brasil. O pedido de ajuda ao Itamaraty foi feito por e-mail na sexta-feira (11). "Vou fazer isso quando estiver no Brasil, 'a salvo', e por que não informar também as autoridades brasileiras sobre como estamos sendo tratados na Europa? Vou fazer tudo o que estiver a meu alcance", afirma.
Analista de comércio exterior Daniel Duarte, morador de Vinhedo (SP), durante viagem pela Europa (Foto: Daniel Duarte/Arquivo Pessoal)Analista de comércio, morador de Vinhedo, em viagem pela Europa (Foto: Daniel Duarte/Arquivo Pessoal)

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